Contas públicas · setembro de 2026
Superávit de R$ 4,8 bi e déficit de R$ 5,5 bi no mesmo dia: os dois números estão certos
O Tesouro mede o Governo Central e o Banco Central, o setor público inteiro. Setembro foi positivo para a União, negativo para o conjunto, e a dívida bruta ficou estável em 82,9% do PIB.
Publicada em 29 de outubro de 2026 às 16:47 · atualizada em 29 de outubro de 2026 às 18:00
Em 30 segundos
- Tesouro Nacional: o Governo Central (Tesouro, Previdência e Banco Central) teve superávit primário de R$ 4,8 bilhões em setembro (R$ 4,839 bi, pelo Estadão Conteúdo), contra déficit de R$ 14,4 bilhões em setembro de 2025.
- Banco Central, nota de 29/10: o setor público consolidado teve déficit primário de R$ 5,5 bilhões, contra déficit de R$ 17,5 bilhões em setembro de 2025. O Governo Central entrou com +R$ 3,5 bi; os governos regionais, com −R$ 5,6 bi; as estatais, com −R$ 3,4 bi.
- Os dois números são compatíveis: o Governo Central é uma parte do setor público e cada instituição o mede por metodologia própria (R$ 4,8 bi no Tesouro; R$ 3,5 bi no Banco Central).
- O superávit de setembro teve ajuda de receitas que variaram muito sobre setembro de 2025: petróleo, Imposto de Renda e devolução de precatórios cancelados. De janeiro a setembro, o Governo Central acumula déficit de cerca de R$ 90 bilhões.
- A dívida bruta do governo geral ficou em 82,9% do PIB (R$ 11,1 trilhões), o mesmo percentual de agosto; a líquida, em 70,0% (R$ 9,4 trilhões).
Por que existem dois números
O Tesouro Nacional divulga o resultado do Governo Central, que reúne o Tesouro, a Previdência Social e o Banco Central. O Banco Central divulga o setor público consolidado, que soma ao Governo Central os governos regionais (estados e municípios) e as empresas estatais. Em setembro, os governos regionais (−R$ 5,6 bilhões) e as estatais (−R$ 3,4 bilhões) tiveram déficit maior que o superávit do Governo Central (+R$ 3,5 bilhões no Banco Central), e o conjunto fechou em −R$ 5,5 bilhões. As duas instituições também medem a União por metodologias próprias, o que explica R$ 4,8 bilhões num lado e R$ 3,5 bilhões no outro. Os números não devem ser somados nem comparados como se fossem a mesma medida.
O que explica o superávit de setembro
Segundo o Tesouro, a receita líquida do Governo Central cresceu 13,6% acima da inflação sobre setembro de 2025 (R$ 24,6 bilhões) e a despesa, 2,4% (R$ 4,7 bilhões). As receitas de exploração de recursos naturais subiram R$ 5,7 bilhões acima da inflação (alta de 71,9%), com a valorização do petróleo, o aumento da produção e a comercialização pela PPSA; o Imposto de Renda arrecadou R$ 7,3 bilhões a mais, puxado pelas empresas; e a rubrica de demais receitas não administradas subiu R$ 12,8 bilhões, principalmente pela devolução de recursos de precatórios cancelados pelo Judiciário. Só essa última variação é maior do que o resultado do mês inteiro. Do lado da despesa, os créditos extraordinários subiram R$ 9,9 bilhões, dos quais R$ 7,6 bilhões em subvenção a diesel e derivados, e as despesas discricionárias caíram R$ 8,4 bilhões.
O que não dá para concluir
Um mês de superávit não indica mudança de trajetória. As variações comparam setembro de 2026 com setembro de 2025 e incluem itens que não se repetem todo mês, como a devolução de precatórios. Não é possível calcular, com as notas divulgadas, quanto do resultado viria sem esses itens: a variação de uma rubrica não é o valor dela no mês.
Juros, déficit nominal e dívida
Pelo Banco Central, o resultado primário é só uma parte da conta. Os juros nominais do setor público somaram R$ 107,5 bilhões em setembro (R$ 84,7 bilhões em setembro de 2025), com o ganho de swap cambial caindo de R$ 13,4 bilhões para R$ 2,8 bilhões, e o resultado nominal foi um déficit de R$ 113,0 bilhões. Em 12 meses, o déficit primário do setor público é de R$ 70,1 bilhões (0,52% do PIB) e o nominal, de R$ 1.275,1 bilhões (9,51% do PIB). A dívida bruta do governo geral ficou em 82,9% do PIB (R$ 11,1 trilhões), o mesmo percentual de agosto; a dívida líquida do setor público subiu 0,7 ponto percentual no mês, para 70,0% do PIB (R$ 9,4 trilhões), e 4,7 pontos no ano. O G1 descreve a dívida bruta como a maior desde 2021.
O ano e a meta
No acumulado de janeiro a setembro, o Governo Central tem déficit primário de R$ 90,2 bilhões, menor que os R$ 100,3 bilhões do mesmo período de 2025, mas ainda negativo. A meta fiscal de 2026 é de superávit primário de 0,25% do PIB, com tolerância de 0,25 ponto percentual para mais ou para menos, segundo as reportagens sobre o resultado; a meta vale para o ano, e os resultados mensais ou de 12 meses são apenas termômetros.
O que acompanhar
Os próximos resultados do Tesouro (outubro) e do Banco Central dirão se setembro foi exceção. Vale observar se as receitas de petróleo e de Imposto de Renda de empresas se mantêm, se a devolução de precatórios se repete e como evolui a despesa com subvenção a combustíveis, que o Tesouro liga à mitigação dos efeitos do conflito no Oriente Médio.
Matéria escrita em 29/10/2026 (corte: 18h). O Banco Central foi lido na nota original (PDF de 29.10.2026). O resultado do Governo Central vem da nota do Tesouro por intermédio da Agência Brasil e do Estadão Conteúdo; o relatório do Tesouro (RTN) não foi aberto. A descrição de metodologia de cada instituição não foi detalhada. A afirmação de que a dívida bruta é a maior desde 2021 é do G1 e não consta da nota do Banco Central. Não há previsão de dívida, de meta fiscal nem avaliação política.
Fontes
- bcb.gov.brBanco Central — Nota para a Imprensa: estatísticas fiscais de setembro (29/10/2026)
- agenciabrasil.ebc.com.brAgência Brasil — Contas do governo têm superávit de R$ 4,8 bilhões em setembro (Tesouro, 29/10/2026)
- opovo.com.brO Povo / Estadão Conteúdo — Governo Central tem superávit primário de R$ 4,839 bi em setembro (29/10/2026)
- metropoles.comMetrópoles — Contas do governo registram superávit de R$ 4,8 bilhões em setembro (29/10/2026)
- istoedinheiro.com.brIstoé Dinheiro — Tesouro: Governo central tem superávit de R$ 4,839 bilhões em setembro (29/10/2026)
- correiobraziliense.com.brCorreio Braziliense — Déficit do governo central chega a R$ 90 bi no acumulado de 2026 (29/10/2026)
- opovo.com.brO Povo — Setor público tem déficit primário de R$ 5,497 bi em setembro, revela BC (29/10/2026)
- g1.globo.comG1 — Contas públicas têm déficit de R$ 5,5 bilhões em setembro; dívida segue em 82,9% do PIB (29/10/2026)